domingo, 10 de março de 2019

Planejamento energético de longo prazo: cenários para apoiar a formulação de políticas públicas no campo da transição energética


Quando o tema é planejamento energético, o longo prazo sempre estará presente e para a formulação de um bom planejamento, a informação se torna imprescindível. Entretanto, não é qualquer informação que deve ser utilizada nesse processo, mas aquela que diz respeito ao futuro.
Embora pareça óbvio, as informações sobre o futuro possuem características diferentes daquelas relacionados ao presente, isto porque o futuro possui características próprias:  ele é múltiplo e incerto, é inusitado, impossível de ser previsto, é um constructo da nossa imaginação, os atores podem mudar o seu curso a todo instante e tem seu curso influenciado por forças ambientais*.
Nesse contexto, a construção de cenários prospectivos caracteriza-se como a melhor metodologia para produzir esse tipo de informação, já que essa metodologia consegue lidar com as características do futuro, levando em consideração as decisões e ações dos atores, capturando as possíveis quebras de tendências e possíveis disrupturas. Ao construir várias histórias a respeito do futuro, é assumido que ele é múltiplo e incerto e necessita ser construído.
Focando no tema da transição para energia limpa, a utilização da construção e uso de cenários prospectivos torna-se bastante adequada, isso porque todo processo de transição pressupõe a inexistência de um paradigma consolidado, ou seja, ele está por emergir. Em outras palavras, a tecnologia predominante ainda não se estabeleceu, está em desenvolvimento ou a ser descoberta. Na realidade, várias tecnologias concorrem entre si para ocupar tal espaço. E o inusitado pode emergir a qualquer momento. É sempre bom lembrar que, no longo prazo, tudo pode mudar.
Essa questão não é a única que justifica a utilização de cenários, porque a transição não é somente energética, visto que o mundo está em transição e, com efeito, diversas tecnologias disruptivas podem aflorar e impactar a área de energia. Inteligência artificial, novos materiais advindos da nano e biotecnologia, a impressora 3D, o blockchain, o big data, a inteligência artificial e a inteligência aumentada são alguns exemplos.
Importa destacar que essas mudanças não ocorrem somente no campo tecnológico, mas também nos campos social, demográfico e ambiental. Todas elas, de forma sistêmica, irão impactar a transição energética e a utilização de cenários se apresenta como uma das melhores metodologias existentes para produzir informação sobre esse futuro tão incerto e que se apresenta com múltiplas possibilidades. São os cenários que produzem as melhores informações para subsidiar o processo de tomada de decisão dos estrategistas e formuladores de políticas públicas.
Cabe lembrar que os cenários lidam com variáveis qualitativas, construindo histórias a respeito do futuro que irão iluminar o processo de tomada de decisão. Estuda-se o futuro não para se saber o que vai acontecer, mas para melhorar o processo decisório hoje, decidindo-se qual o melhor caminho a ser seguido e que apostas devem ser feitas.
Entretanto, caso sejam utilizados de forma inapropriada, os cenários guardam em si um risco estratégico. Além disso, muitos planejadores e formadores de políticas públicas não atribuem o devido valor a esse instrumento de planejamento. A falta de projeção numérica retira esses executivos da zona de conforto e gera, muitas vezes, descrença no método e em seus resultados. Esquecem que o futuro é um constructo da nossa imaginação e não algo que possa ser previsto.
Sem a absorção adequada da metodologia e de seus resultados, nem os planos nem as visões de futuro já sedimentadas são alterados e o futuro não é construído levando, assim, ao aumento do risco estratégico em relação à tomada de decisão.
Para reduzir o risco estratégico de decisões e da construção de uma estratégia inadequada, é importante que:
  • Sejam desenvolvidas capacidades para a construção e uso de cenários.
  • Os planejadores e formuladores de políticas públicas sejam capacitados.
  • A aplicação da metodologia seja adequada e de forma participativa.
  • O ambiente seja permanente e sistematicamente monitorado.
  • Se busque a interação entre os cenários que trabalham com variáveis qualitativas e com as metodologias quantitativas, dando assim, mais segurança ao processo decisório.

Palestra ministrada por Elaine C. Marcial no Workshop: Long-term Scenarios for the Clean Energy Transition in Latin America, que ocorreu nos dias 25 e 26 de fevereiro de 2019, no auditório do Ministério das Minas e Energia, em Brasília.

* Ver publicação: A palavra de ordem é Disrupção. Sua organização está preparada?