sábado, 30 de novembro de 2019

Resultados do II Encontro do NEP-Mackenzie


Compartilhamos os resultados do II Encontro do NEP-Mackenzie, que ocorreu na Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília e contou com a presença de 34 participantes, representantes de 18 instituições diferentes, entre Embrapa, BNDES, Ministério da Defesa, Ministério da Ciência, Tecnologia Inovação e Comunicação, Apex-Brasil, Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, FINEP, CAIXA e CNI, além de representes da academia como do UniCeub e da Universidade Católica de Brasília.

Criado em julho de 2018, o NEP-Mackenzie possui como missão “Contribuir com o desenvolvimento científico e tecnológico no campo dos estudos de futuro em apoio à formulação de estratégias e políticas públicas”. E por meio desse evento atende seu objetivo estratégico de “realizar e divulgar a produção científica e tecnológica no campo dos estudos de futuro”.

O evento iniciou-se com uma apresentação por mim proferida onde apresento o NEP, as atividades desenvolvidas este ano e as principais lições aprendidas até o momento. Fui seguida pela apresentação do Dr. Rodrigo Mendes Leal, com palestra sobre o “Planejamento das Estatais no Brasil e perspectivas de utilização de cenários”, seguido pelo Dr. Hercules Antônio do Padro, que apresentou a “Plataforma de Ideação: um apoio ao planejamento por cenários", plataforma tecnológica que irá apoiar o processo de planejamento por cenários.

Na sequência, o Dr. Marcello José Pio apresentou “Competências para um cenarista” ensaio construído com base no levantamento realizado no projeto Define, após um rápido coffee break, o Dr. Thomaz Fronzaglia retomou as atividades com um debate sobre “O uso dos cenários para o planejamento estratégico de CT&I”. “A contribuição do grupo de pesquisa NEP no processo de planejamento por cenários da biblioteca do Ipea” foi o tema apresentado pelo Ms. Jhonathan Divino Ferreira dos Santos, seguido pelo Ms. Marcos Aurélio Santiago Françoso que falou sobre o “Usos dos foresight”. O evento se encerrou com o Ms. Marcos Antonio Gomes Pena Junior comentando “A limitada racionalidade humana: razão prospectiva”, que manteve ainda mais das metades dos participantes até as 19hs de uma sexta-feira debatendo essas questões.

Segue link para acesso às apresentações:

Seja um apaixonado por foresight! Junte-se a esse time!

Elaine Marcial é Doutora em Ciência da informação e coordenadora do NEP-Mackenzie – Núcleo de Estudos Prospectivos da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília.


terça-feira, 26 de novembro de 2019

Paixão nacional dando um show de estratégia


Não é a primeira vez que o futebol nos dá exemplo da importância da informação estratégica, também conhecida com inteligência competitiva, e do seu uso na formulação de uma estratégia sólida para o atingimento do sucesso. Para ganhar é preciso dedicação, capacitação, informação e estratégia, em geral de longo prazo. Vimos o show apresentado pela seleção alemã, ao ganhar a Copa do Mundo em 2014, como um exemplo que integra informação e estratégia, em especial uma estratégia de longo prazo.

Nesse contexto, destaco o jogo realizado no dia 13 de novembro, no Rio de Janeiro, entre Vasco e Flamengo que surpreendeu a todos. Uma estratégia inovadora, baseada em informação levou um time, considerado fraco, chegar ao um empate com o time favorito do campeonato brasileiro. O treinador do Vasco juntou conhecimento e informação com uma das grandes capacidades que o brasileiro tem de criar e de se adaptar, o que levou ao resultado que deixou ambas as torcidas perplexas e os apaixonados por futebol também. Informação + estratégia + inovação + adaptação é fórmula de sucesso.

Criatividade e adaptação são caracterizas essenciais para a sobrevivência e conquista de novos mercados nos dias de hoje altamente disruptivos. Mas isso não basta, há necessidade de muito conhecimento, informação e inovação permanente, inclusive inovação disruptiva, para ganhar mercado e ocupar posição de destaque no mundo dos negócios. Há também a necessidade de se formular estratégias, em sua maioria de longo prazo.

Vimos a Coreia sair de um país que vendia produtos de baixa qualidade na década de 1980 e a China na década de 1990, se tornarem grandes exportadoras de produtos com alto valor agregado. Entretanto, isso não ocorreu da noite para o dia, representou uma estratégia de mais de duas décadas.

Por outro lado, o Brasil, que já era na década de 1970, o país que ia para frente, se manteve basicamente como exportador de commodities. Sem uma estratégia de longo prazo clara, formulada com base na produção de informação estratégica, não sairá dessa condição.

Há a necessidade de escolhermos quais serão nossas opções estratégicas e a formulação de uma estratégia de longo prazo que auxilie a pavimentar esse caminho. Temos tanto que investir em inovação tecnológica quanto na formação de mão de obra qualificada para atuar nessas áreas priorizadas. É preciso também construir um ambiente propício para que a inovação ocorra e o mercado se desenvolva.

A China percebeu isso e mandou chineses para as melhores universidade do mundo realizarem pesquisa aplicada nas áreas considerada prioritárias. Nós fizemos isso na década de 1970 e início dos anos 1980. Por exemplo, a Embrapa fez grandes investimentos mandando seus pesquisadores estudarem nas melhores universidades do mundo, o que resultou na transformação do Brasil em “celeiro do mundo” e o cerrado em um dos maiores centros produtores de grãos do mundo, quando se acreditava que se tratar de áreas de baixa produtividade agrícola.

A falta de estratégia levou o Estado brasileiro a investir, no passado recente, em graduandos estudando no exterior, sem um direcionamento claro, e por conseguinte sem um retorno específico para o País como o verificado na China. Sem objetivos estratégicos claros e metas bem definidas a serem atingidas não se chega a lugar nenhum. Não se investe por que é bom, investe-se buscando retornos futuros claros e mensuráveis.

Como os recursos são escasso, temos que priorizar. Lembro que priorizar é escolher poucas áreas, de preferência que caibam na palma da mão, para as quais vamos fazer nossas apostas estratégicas, formular uma estratégia de longo prazo e investir em capacitação, ciência, tecnologia e inovação que coloquem nosso país em um novo patamar. 

Essa escolha deve ser pautada, na minha opinião, juntando dois tipos de informação: (1) a sobre o futuro, quais serão as demandas futuras, e (2) a lista de nossas competências essenciais. As apostas estratégicas devem ser o resultado da análise desses dois tipos de informações estratégicas, para que possamos, rapidamente, produzir retorno ao País. Vejam que a China fez isso no campo da produção de painéis solares: aproveitou o fato de dispor de terras raras em abundância e desenvolveu as competências necessárias para a transformação dessa matéria prima em produto com alto valor agregado. 

Juntar as duas na formulação da estratégia é chave, pois não adianta nada investirmos em uma competência que não será importante no futuro. Alem disso, sem uma estratégia de longo prazo não sairemos do voo de galinha e dos planos econômicos que não nos levarão ao desenvolvimento. Então eu pergunto: Quais são nossas competências essenciais que serão importantes no futuro? No que devemos investir? Colocar nossas fichas?

Seja um apaixonado por foresight e construa um futuro melhor!

Participe do II Encontro do Nep-Mackenzie que ocorrerá no dia 29 de novembro, a partir das 14:30 a Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília (ver detalhes em: <http://elaine-marcial.blogspot.com/2019/11/ii-encontro-do-nep-mackenzie.html>).

Elaine Marcial é Doutora em Ciência da informação e coordenadora do NEP-Mackenzie – Núcleo de Estudos Prospectivos da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

II Encontro do NEP-Mackenzie


Os estudos prospectivos produzem informação valiosa sobre o futuro que nos ajudam a decidir melhor hoje, seja para auxiliar a tomada de decisão diária ou de planejamento de curto, médio e longo prazo. Nos libertam dos pontos cegos construídos no dia a dia e nos ajudam a enxergar além do que está estabelecido por nossos modelos mentais.

Entretanto, sem pesquisa e inovação qualquer área fica estagnada, parada no tempo. É preciso compreender melhor os fenômenos do por vir e como identificá-los a partir do hoje. Aprimorar e desenvolver métodos e modelos é chave para a produção de informação sobre o futuro que realmente contribua com o processo decisório. É nesse contexto que o NEP-Mackenzie foi criado e desenvolve seus trabalhos de pesquisa pura, aplicada e de desenvolvimento tecnológico, buscando, inclusive, parcerias com outras organizações de pesquisa.

Nesse contexto, convido a todos os interessados em estudos de futuro a participarem do II Encontro do NEP Mackenzie, que ocorrerá no dia 29 de novembro, a partir das 14:30, na Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília - SGAS 906 Sul.

O Núcleo de Estudos Prospectivos tem por missão “Contribuir com o desenvolvimento científico e tecnológico no campo dos estudos de futuro em apoio à formulação de estratégias e políticas públicas” e neste II Encontro apresentará os resultados dos debates e pesquisas realizadas em 2019.

Conto com a presença de todos os “apaixonados por foresight”.

Venha participar dessa rede!

Seja um “Apaixonado por foresight” e melhore seu processo decisório hoje.
Elaine Marcial

II Encontro do NEP-Mackenzie

Data: 29 de novembro de 2019
Horário: 14:30 – 18:00
Local: Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília – SGAS 906 Conj A Bloco 1
Asa Sul, Brasília
Programação
14:30 – 15:00 – Abertura – Dra. Elaine Coutinho Marcial
                        Evolução do projeto Define lições aprendidas
15:00 – 15:20 – Planejamento das estatais no Brasil e perspectivas de utilização de cenários. Dr. Rodrigo Mendes Leal
15:20 – 15:50 – Plataforma de Ideação: um apoio ao planejamento por cenários – Dr. Hercules Antônio do Prado
15:50 – 16:10 – Competências para um cenarista – Dr. Marcello Jose Pio
16:10 – 16:30 – Coffee-Break
16:30 – 16:50 – O uso dos cenários para o planejamento estratégico de CT&I – Dr. Thomaz Fronzaglia
16:50 – 17:10 – A contribuição do grupo de pesquisa NEP no processo de planejamento por cenários da biblioteca do Ipea - Ms. Jhonathan Divino Ferreira dos Santos
17:10 – 17:30 – Usos dos forsight – Ms. Marcos Aurélio Santiago Françozo
17:30 – 17:50 – A limitada racionalidade humana: razão prospectiva: Ms. Marcos Antonio Gomes Pena Júnior
17:50 – 18:00 – Encerramento – Dra. Elaine Coutinho Marcial

sábado, 16 de novembro de 2019

Bioeconomia: Qual será o posicionamento estratégico do Brasil?


O agronegócio é o pensamento estratégico nacional. Um dos poucos ou talvez o único. O potencial brasileiro não se encontra apenas na produção agrícola, mas também na exploração de nossa biodiversidade. Sendo um país continental, abrigamos diversos biomas com um grande potência para alimentar a economia do futuro: a bioeconomia.
O termo, que apesar de existir há mais de 50 anos, ganhou projeção na última década, tendo sido incorporado, como prioritário, nas estratégias de países desenvolvidos, como Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Suécia, Finlândia e União Europeia.
No Brasil, a bioeconomia tem estado presente no debate também há algum tempo. Foi objeto de cenarização na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em 2016, durante a construção dos Cenários exploratórios para o desenvolvimento tecnológico da agricultura brasileira, que apontavam sua importância. No cenário “Na crista da onda”, a bioeconomia associada ao protagonismo na geração de tecnologias de vanguarda e grandes possibilidades de inovação são forças que geram profunda mudança estrutural em pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) nas cadeias agropecuárias até 2034. O país se torna protagonista na geração de produtos, tecnologias e serviços na fronteira do conhecimento e na sua implementação nas dimensões alimentícias e não alimentícias, com profunda diversificação da produção e das oportunidades para diferenciação dos produtos. Também apresenta resultados significativos na adição de valor ao longo dos diferentes elos das cadeias produtivas associadas, em particular biofármacos, bioinsumos e bioprodutos (Martha et al., 2016).
O tema retorna ao debate nas oficinas e na construção dos cenários para Brasil 2035, momento em que foram desenvolvidas cenas para bioeconomia em cada um dos quatro cenários construídos (Marcial, et al., 2017).
Em 2018, o Ministério da Ciência, Inovação, Tecnologia e comunicação (MCITC), lançou o Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação em Bioeconomia cujo objetivo é “promover o desenvolvimento científico, tecnológico e da inovação para superar os desafios e aproveitar as oportunidades apresentadas pela bioeconomia nacional, focando no desenvolvimento sustentável e na produção de benefícios sociais, econômicos e ambientais”. Em julho de 2019, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), publicou a portaria que institui o Programa Bioeconomia Brasil[1].
O tema também foi foco do VII Congresso da Rede Brasileira de Tecnologia e Inovação de Biodiesel, no início de novembro/2019, em Florianópolis. Ao tempo em que comemoravam o aumento da mistura do biodiesel ao diesel, levantavam a preocupação com o contigenciamento dos recursos destinados a pesquisa na área desde 2013, bem como a necessidade de desburocratização para ampliação do número de start ups na área. Sem recursos para pesquisa e sem a redução da burocracia a área teria dificuldade de evoluir.
Entretanto, essas iniciativa não caracterizam uma estratégia nacional para a bioeconomia, que alinhe as estratégias dos diversos agentes para transformar o país em um expoente na área. O economista polonês Christian Patermann, em reportagem publicada recentemente na revista Exame[2], sob o título “Um mundo mais verde,” alerta que “o Brasil deveria ter uma estratégia nacional de bioeconomia”. Nessa mesma reportagem o coordenador-geral de bioeconomia do MCTIC, afirma que “sofremos problemas sérios de governança”, ou seja, falta uma estratégia conjunta que alinhe e otimize os investimentos e iniciativas existentes no país. Há necessidade de alinhamento estratégico, que oriente, com visão estratégia de longo prazo, as decisões dos diversos agentes públicos e privados.
Esse é um exemplo, dentre outros, nos quais Brasil possui um grande potencial de desenvolvimento, mas que muitas vezes perde o “bonde da história” pela falta de uma estratégia de longo prazo que alinhe os investimentos e iniciativas no país.
A questão que se levanta é: por quanto tempo o país irá permanecer sem uma estratégia de longo prazo? E, que áreas serão priorizadas? Desde que a antiga Secretária de Planejamento da Presidência da Repúbica foi extinta que o país padece sem um rumo de longo prazo. Preso a estratégias de curto prazo dos governo que entram e saem, repleto de solução de continuidade em projetos estratégicos, vivendo em voos de galinha.
O Brasil possui muito mais condições de desenvolve-se e ser líder em bioeconomia do que qualquer um dos países citados: é um país tropical, com mais de uma safra ao ano, possui água em abundancia e grandes extensões de terra cultiváveis para suprir de matéria prima essa economia do futuro, além de uma biodiversidade fantástica de despertar inveja e cobiça em qualquer país no mundo. Mas precizamos (precisamos) mais do que isso, é necessário formular uma estratégia, realizar escolhas e investir em capacitação e PD&I. Precisamos priorizar! Concentrar esforços! E para tanto, é necessário olhar para as nossa competências essências e para o futuro.
A bioeconomia poderia dar mote a priorização dessas áreas estratégicas, pois dialoga com o nosso pensamento estratégico, com nossa competência essencial e com o futuro, mais limpo e sustentável. Também poderá gerar muitos postos de trabalho.
O campo da bioeconomia é enorme, e se amplia quando associado a bio e a nanotecnologia, ofertando novos materiais limpos, recicláveis e renováveis. Além disso, o país dispõem da Embrapa, que poderá ser utilizada como peça estratégica chave em todo esse processo, pois já possui, inclusive, pesquisas nessa área. Falta a definição de prioridades para a concentração de investimento. Falta uma estratégia e vontade política.
Definir que áreas da bioeconomia deverão ser priorizadas é o trabalho que a formulação de uma estratégia de longo prazo teria a responsabilidade de indicar, para que se priorize os investimentos em PD&I, capacitação e dos agentes econômicos que colocarão o Brasil na posição de país desenvolvido que há muito merece ocupar.
Elaine Marcial é Doutora em Ciência da informação e coordenadora do NEP-Mackenzie – Núcleo de Estudos Prospectivos da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília.

REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação. Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação em Bioeconomia. Brasília, DF: Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 2018.
MARTHA JUNIOR, G. B.; PENA JUNIOR, M. A. G.; MARCIAL, E. C.; CASTANHEIRA NETO, F.; TORRES, L. A.; NOGUEIRA, V. G. de C.; CHERVENSKI, V. M. B.; SILVA, G. T. S. da; WOSGRAU, A. C. Cenários exploratórios para o desenvolvimento tecnológico da agricultura brasileira: síntese. Braília: Embrapa, 2016. Disponível em: <https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/156492/1/AGROPENSA-cenarios-exploratorios.pdf>. Acesso em: 14 de nov. 2019.
Marcial et al. Brasil 2035: cenários para o desenvolvimento. Brasília: Ipea/Assecor, 2017. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=30156>. Acesso em: 14 nov. 2019.



[2] Exame – Especial guia Exame de sutentabildiade: A eocnomia do futuro. São Paulo: Exame, Edição 1197, ano 53, nº 21, 13 de nov. 2019.

sábado, 7 de setembro de 2019

As características do futuro e a estratégia


A maior parte das organizações desenvolvem seus processos de formulação de estratégia sem se preocupar com o futuro. Algumas até se preocupam com futuro, levantam tendências e previsões, mas não se dão conta das características do futuro e formulam estratégias equivocada e tomam decisões erronias.

Mas quais são as características do futuro com as quais as organizações devem se preocupar? Destacamos seis que interferem no processo de construção de informação a respeito dele.

O futuro ser múltiplo e incerto, como argumentado por Michel Godet, é a primeira delas. Isso significa que a partir do hoje ele se abre em múltiplas possibilidades e que nenhuma delas está determinada, irá depender das decisões e ações de atores diversos. Como não conseguimos saber, de antemão, o que irá acontecer, a incerteza está presente. Ela faz parte do futuro e ainda é maior em ambientes turbulentos e disruptivos como os de hoje.

O futuro sempre nos surpreende com eventos inusitados. Eventos esses difíceis de serem antecipados e que surpreendem a todos, a exemplo dos cisnes negros definidos por Nassim Taleb. Essa segunda característica do futuro de ser inusitado o torna ainda mais incerto. Logo as organizações devem possuir sistemas de monitoramento permanentes para conseguir captar os sinais de possíveis mudanças.

Como o futuro não existe, está ainda por ocorrer, toda e qualquer visão construída a respeito dele é um constructo da nossa imaginação – terceira característica do futuro. O máximo que conseguimos é imaginar as diversas possibilidades de futuro. Isso não significa que as organizações não devam estudar e produzir informações sobre o futuro, mas devem ter consciência de que são apenas possibilidade frutos de visões informadas construídas.

Apesar de inusitado e incerto, o futuro é sempre influenciado por grandes forças que estão em operação no ambiente e que contribuem com sua construção – quarta característica do futuro. Referem-se, em geral, à megatendências como o envelhecimento da população ou a avanço das tecnologias da informação e comunicação modificando o ambiente de trabalho e de produção, bem como as relações sociais.

Entretanto, a atuação de atores pode gerar eventos inusitados que causem rompimento dessas grandes forças em operação no ambiente. Ou seja, o futuro também tem seu curso alterado pelas decisões tomadas pelos atores, que molda o futuro ao buscarem implementar suas estratégias e desejos – quinta característica do futuro. Um ator modifica o ambiente ao realizar investimentos e ações para atingimento de seus objetivos estratégicos ou para evitar a ocorrência de algum evento inoportuno. Por sua vez, os demais atores existentes no ambiente reagem a esse movimento, ou no sentido de amplificá-lo ou para impedir sua ocorrência. O futuro se constrói por meio do resultado desse confronto de estratégias dos diversos atores e, assim, vão moldado o curso dos acontecimentos, mudando o por vir a todo momento.

Por fim, a sexta e última característica do futuro representa a impossibilidade de ser previsto. Essa característica é o resultado de todas as outras. Sendo o futuro é múltiplo e incerto a previsão não faz sentido, visto que representa uma visão única de futuro. Para Taleb o inusitado sempre surpreende a todos e é impossível de ser previsto. Sendo um constructo da nossa imaginação e cada ator pode construir o seu, não existe um único futuro a ser previsto, há futuros distintos construídos por cada ator. Por fim, apesar da existência de forças ambientais, elas podem ser rompidas ou por eventos inusitados ou pelo confronto da estratégia dos atores, cujo resultado, em sua maioria, é impossível de ser previsto.

Todas essas características do futuro, sintetizadas na Figura 1, devem ser observadas quando se produz informação sobre ele para subsidiar os processos decisório e de planejamento estratégico. Até porque planejar é realizar apostas nesse futuro incerto. É nesse contexto que a construção de cenários ganha espaço, por ser a metodologia que consegue capturar todas as características do futuro.

Figura 1 – Característica do futuro

 
Então, sua organização realiza a formulação de estratégia com base em cenários? Ela está preparada para esse futuro cada vez mais incerto e disruptivo?

Elaine C. Marcial
Doutora em Ciência da Informação e coordenadora do Grupo de pesquisa em estudos de futuro da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília – NEP-Mackenzie.

domingo, 1 de setembro de 2019

Planejar é preciso!


Há décadas que o Brasil carece de uma estratégia de longo prazo, mas nessa última sexta-feira (30 de agosto de 2019), uma luz no fim do túnel surgiu. A Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE/PR) lançou o Sistema de Planejamento Estratégico Brasileiro (SIPEB), no auditório do Anexo I da Presidência da República.


O evento adotou como lema: Planejar é preciso! Além de necessário, sem planejamento, em especial de longo prazo, o país fica à deriva, sofrendo diversas soluções de continuidade e apresentando crescimento caracterizado como “voo de galinha”.

No mundo disruptivo que vivemos, ter uma estratégica é fundamental. Quais serão nossas apostas estratégicas? Em quais conhecimentos e tecnologias devemos priorizar nossos investimentos? Focadas para que setor prioritário da economia? Quais as nossas prioridades estratégicas? Quais os nossos desafios? Que fatores críticos de sucesso devem ser tratados para que obtenhamos sucesso em nossos investimentos? Quem são os atores-chave e que parcerias estratégicas deverão ser firmadas para a construção do futuro desejado?

O projeto apresentado, baseado na criação de um Centro de Governo responsável por formular a Estratégica, coordenar o processo, monitorá-la e avaliar as políticas públicas, bem como realizar a articulação política, a comunicação e o accountability necessários, certamente não será trabalho de um único órgão. Será necessário a articulação de ação conjunta para que realmente o nosso país tenha uma estratégia de longo prazo, uma das funções primordiais da Presidência da República.

A comunicação, destacada como uma das ações estratégicas desse sistema, é essencial visto que toda a sociedade, em especial os agentes econômicos, devem conhecer a estratégia Nacional para que possam ajustar seus investimentos e assim contribuir para a sua consecução. Para tanto, será também necessário a construção e internalização de um pensamento estratégico Nacional compartilhado por toda a sociedade brasileira com temos hoje em dia: “Brasil celeiro do mundo”. A força de um pensamento estratégico Nacional é enorme, ele age de forma subliminar influenciando até mesmo nossas decisões pessoais de compra. Não é por acaso que somos os líderes em vendas de caminhonetes. Ter uma caminhonete estacionada dentro de um shopping é sinônimo de status. Também explica o sucesso da música sertaneja em todo o nosso país. Este é o verdadeiro pensamento estratégico, pois move uma sociedade e a economia de um país.

Outros pontos importantes desse sistema referem-se à integração das políticas públicas e planos estratégicos, buscando-se uma atuação proativa e prospectiva. Essa criação de sinergia entre as políticas públicas nos trará agilidade e redução dos custos de implantação e do tempo de obtermos os resultados. A atuação proativa, por meio da antecipação de eventos futuros, será conduzida por uma sala de situação chamada Sala Brasil. A atuação da Sala Brasil evitará crises, desgastes políticos com questões muitas vezes de cunho tático ou mesmo operacional, além de perda de tempo e de recursos desnecessários. Já a visão prospectiva nos ajudará a construir o país dos sonhos, bem como a solucionar problemas que carregamos há décadas. Essa visão será apoiada um Observatório.

A Sala Brasil contará com monitoramento diário das principais questões estratégicas prioritárias, terá espaço para as reuniões do Centro de Governo e do Conselho de Governo, ambos responsáveis pelas decisões estratégicas. Disponibilizará salas temáticas e de trabalho para debates e construção de soluções, tudo isso sustentado pelo centro de monitoramento, apoiado por videowall. Já o Observatório fornecerá as informações mais focadas à produção prospectiva.

O SIPEB será responsável por coordenar a formulação da Estratégia de longo prazo que se desdobrará nos planos táticos (médio prazo), operacionais (curto prazo) e nos projetos, iniciativas e processos prioritários, integrando todas essas atividades ao orçamento para que haja a alocação adequada de recurso.

Finalmente, parece que o nosso país acordou para a importância de formularmos uma estratégia de longo prazo e está investindo no que, acredito, ser o primeiro passo para nos transformar em uma nação desenvolvida, conforme resultado apresentado no livro Brasil 2030: cenários para o desenvolvimento (disponível para download no portal do Ipea).

Mas esse, sem sombra de dúvidas, não é um trabalho a ser executado somente pela SAE/PR. Haverá a necessidade do envolvimento de todos os órgãos de Estado, no nível federal, estadual e municipal, principalmente pelo fato de que as políticas públicas acontecem no território e não em Brasília. Entretanto, é também necessário que toda a sociedade brasileira se envolva nesse projeto, visto que sem um pensamento estratégico Nacional esse esforço será em vão.

O Núcleo de Estudos Prospectivos da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília (NEP-Mackenzie) esteve presente no evento, representado pelos pesquisadores Dra. Elaine Marcial, Dr. Thomas Fronzaglia; Ms. Marcos Pena e Ms. Marcos Françozo. O NEP-Mackenzie já elabora proposta de pesquisa que irá contribuir com esse projeto. Então eu pergunto: que país desejamos deixar para os nossos filhos e netos? E o que devemos fazer como sociedade para construir com a construção desse país tão sonhado? Qual a nossa contribuição?

Dra. Elaine Coutinho Marcial é coordenadora do NEP-Mackenzie – Núcleo de Estudos Prospectivos da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília.

Obs.: Foto Dra. Elaine Marcial entregando o Certificado de Participação ao General Lauro Luís Pires da Silva, Secretário Especial Adjunto da SAE/PR.


terça-feira, 20 de agosto de 2019

Grupo de pesquisa trabalha Estudos do Futuro como ferramenta para criação de políticas públicas


Pesquisadores do Mackenzie
em Brasília querem fortalecer a utilização desta área como metodologia de formulação de políticas governamentais
Por Elaine Marcial

Estamos coordenando um grupo de pesquisa em Estudos de Futuro, o NEP-Mackenzie, que está funcionando, desde o ano passado, na Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília. Esse grupo possui três linhas de pesquisa.

Na linha pesquisa voltada para os campos epistemológico e científico, coordenamos o projeto Define, que busca uma definição unificadora para a matéria. A outra linha de pesquisa é no campo aplicado, na qual o projeto em condução é o de Megatendências Mundiais 2040. A terceira linha de pesquisa foca no desenvolvimento de ferramentas tecnológicas para apoio aos estudos de futuro. O primeiro trabalho a ser desenvolvido nesse campo é por meio da participação em um projeto financiado pela FAP-DF e liderado pela Universidade Católica de Brasília: o projeto Ideação.

Nossa missão é: Contribuir com o desenvolvimento científico e tecnológico no campo dos estudos de futuro em apoio à formulação de estratégias e políticas públicas. E nossa visão de futuro é: Ser referência no Brasil e na América Latina em pesquisa na área dos estudos de futuro para a formulação de estratégia e política pública.

Reportagem que apresenta mais detalhes sobre o grupo de pesquisa pode ser encontrada na página da Faculdade Presbiteriana Mackenzei Brasília:


domingo, 10 de março de 2019

Planejamento energético de longo prazo: cenários para apoiar a formulação de políticas públicas no campo da transição energética


Quando o tema é planejamento energético, o longo prazo sempre estará presente e para a formulação de um bom planejamento, a informação se torna imprescindível. Entretanto, não é qualquer informação que deve ser utilizada nesse processo, mas aquela que diz respeito ao futuro.
Embora pareça óbvio, as informações sobre o futuro possuem características diferentes daquelas relacionados ao presente, isto porque o futuro possui características próprias:  ele é múltiplo e incerto, é inusitado, impossível de ser previsto, é um constructo da nossa imaginação, os atores podem mudar o seu curso a todo instante e tem seu curso influenciado por forças ambientais*.
Nesse contexto, a construção de cenários prospectivos caracteriza-se como a melhor metodologia para produzir esse tipo de informação, já que essa metodologia consegue lidar com as características do futuro, levando em consideração as decisões e ações dos atores, capturando as possíveis quebras de tendências e possíveis disrupturas. Ao construir várias histórias a respeito do futuro, é assumido que ele é múltiplo e incerto e necessita ser construído.
Focando no tema da transição para energia limpa, a utilização da construção e uso de cenários prospectivos torna-se bastante adequada, isso porque todo processo de transição pressupõe a inexistência de um paradigma consolidado, ou seja, ele está por emergir. Em outras palavras, a tecnologia predominante ainda não se estabeleceu, está em desenvolvimento ou a ser descoberta. Na realidade, várias tecnologias concorrem entre si para ocupar tal espaço. E o inusitado pode emergir a qualquer momento. É sempre bom lembrar que, no longo prazo, tudo pode mudar.
Essa questão não é a única que justifica a utilização de cenários, porque a transição não é somente energética, visto que o mundo está em transição e, com efeito, diversas tecnologias disruptivas podem aflorar e impactar a área de energia. Inteligência artificial, novos materiais advindos da nano e biotecnologia, a impressora 3D, o blockchain, o big data, a inteligência artificial e a inteligência aumentada são alguns exemplos.
Importa destacar que essas mudanças não ocorrem somente no campo tecnológico, mas também nos campos social, demográfico e ambiental. Todas elas, de forma sistêmica, irão impactar a transição energética e a utilização de cenários se apresenta como uma das melhores metodologias existentes para produzir informação sobre esse futuro tão incerto e que se apresenta com múltiplas possibilidades. São os cenários que produzem as melhores informações para subsidiar o processo de tomada de decisão dos estrategistas e formuladores de políticas públicas.
Cabe lembrar que os cenários lidam com variáveis qualitativas, construindo histórias a respeito do futuro que irão iluminar o processo de tomada de decisão. Estuda-se o futuro não para se saber o que vai acontecer, mas para melhorar o processo decisório hoje, decidindo-se qual o melhor caminho a ser seguido e que apostas devem ser feitas.
Entretanto, caso sejam utilizados de forma inapropriada, os cenários guardam em si um risco estratégico. Além disso, muitos planejadores e formadores de políticas públicas não atribuem o devido valor a esse instrumento de planejamento. A falta de projeção numérica retira esses executivos da zona de conforto e gera, muitas vezes, descrença no método e em seus resultados. Esquecem que o futuro é um constructo da nossa imaginação e não algo que possa ser previsto.
Sem a absorção adequada da metodologia e de seus resultados, nem os planos nem as visões de futuro já sedimentadas são alterados e o futuro não é construído levando, assim, ao aumento do risco estratégico em relação à tomada de decisão.
Para reduzir o risco estratégico de decisões e da construção de uma estratégia inadequada, é importante que:
  • Sejam desenvolvidas capacidades para a construção e uso de cenários.
  • Os planejadores e formuladores de políticas públicas sejam capacitados.
  • A aplicação da metodologia seja adequada e de forma participativa.
  • O ambiente seja permanente e sistematicamente monitorado.
  • Se busque a interação entre os cenários que trabalham com variáveis qualitativas e com as metodologias quantitativas, dando assim, mais segurança ao processo decisório.

Palestra ministrada por Elaine C. Marcial no Workshop: Long-term Scenarios for the Clean Energy Transition in Latin America, que ocorreu nos dias 25 e 26 de fevereiro de 2019, no auditório do Ministério das Minas e Energia, em Brasília.

* Ver publicação: A palavra de ordem é Disrupção. Sua organização está preparada?