sábado, 25 de fevereiro de 2017

Metodologia de construção de cenário

A compreensão de uma metodologia de construção de cenários passa pelo entendimento das seguintes questões: o que é essa metodologia, por que ela existe, para que ela serve e como ela funciona e é aplicada.
Quanto a esse objeto, há diversas definições. Mas para sua melhor compreensão é necessário conhecer primeiro a definição de alguns termos ligados a metodologia de construção de cenários que, muitas vezes, são utilizados de forma indiscriminada na literatura, seja ela científica ou não. Sendo assim, O que é um cenário? É uma história contada a respeito do futuro. Nunca descreve a realidade atual nem futura, sempre representa visões fictícias a respeito do futuro, que por definição, é sempre múltiplo e incerto. É por isso que são sempre construídos múltiplos cenários e não apenas um (Chermark; Lynham, 2002).
Já o planejamento por cenário, refere-se ao método de formulação de estratégia por meio da utilização da construção e análise de cenários (Chermark; Lynham, 2002). Existem diversos métodos que são utilizados atualmente. Sua taxonomia pode oscilar entre métodos baseados na criatividade, ou em evidências que se apoiam em documentos e análise, ou na experiência (habilidade e conhecimento de indivíduos) ou na interação entre especialistas e atores (Popper, 2008).
Essa metodologia surge em um ambiente turbulento em que os modelos de previsão não atendem mais as necessidades dos formuladores de estratégias. Tais metodologias passam a aceitar a incerteza atrelada ao futuro e a necessidade de gerenciamento do risco. Tanto a visão prospectiva quanto a do foresight – duas grandes escolas no campo dos estudos de futuro – se estabelecem nesse contexto e possuem como objetivo desenvolver melhores estratégias e planos, bem como reduzir as surpresas em ambiente de grande incerteza. Auxilia a desenvolver melhores políticas e serviços públicos, bem como formular estratégicas focadas nas demandas futuras. Seu principal foco é iluminar o processo decisório de forma a conduzir os estrategistas a construírem o futuro.
No Brasil, os métodos de planejamento por cenários mais utilizados são o da Shell, descrito por Peter Schwartz (1996); do Professor Godet (1993); e o de Grumbach (2008), baseado na consulta Delphi e impactos cruzados. Modelo síntese foi desenvolvido (Marcial, 2011), fruto da análise comparativa entre esses três métodos que tem mostrado resultados positivos em construção de cenários recentes (Cenários para a segurança pública no Brasil em 2023 (Ferreira; Marcial, 2015) e Brasil 2035 (no prelo – detalhes em ). Baseia-se no princípio de que há um fio condutor entre esses diversos métodos e que cada estudo exige ferramentas diferentes da prospectiva. Tem também crescido o uso do método de construção de minicenários (Marcial, 2011) principalmente pelas unidades de Inteligência tanto no âmbito do Estado quanto por empresas privadas, para responder a questões estratégicas de grande incerteza.
A metodologia de planejamento por cenários tem apresentado uso crescente em todo o mundo, tanto pelas empresas quanto por governos e instituições públicas pelo fato de facilitar a formulação de estratégias em ambiente de grande incerteza (Santos, 2011).

REFERENCIAS
CHERMACK, T. J.; LYNHAM, S. A. (2002) Definitions and outcome variables of scenario planning. Human Resource Development Review, v. 1, n. 3, pp. 366-383.
FERREIRA, Helder Sant’Ana; Marcial, Elaine C. (2015) Violência e Segurança Pública em 2023: cenários exploratórios e planejamento prospectivo. Brasília: Ipea.
GODET, Michel. (1993) Manual de prospectiva estratégica: da antecipação a acção. Lisboa: Publicações Dom Quichiote.
MARCIAL, Elaine C. (2011). Análise estratégica: estudos de futuro no contexto da Inteligência Competitiva. Brasília: Thesaurus.
MARCIAL, Elaine C.; Grumbach, Raul. (2008) Cenários Prospectivos. Como construir um futuro melhor. 5.ed. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas.
POPPER, R. (2008) Foresight Methodology, in Georghiou, L., Cassingena, J., Keenan, M., Miles, I. and Popper, R. (eds.), The Handbook of Technology Foresight, Edward Elgar, Cheltenham, pp. 44-88. <https://rafaelpopper.wordpress.com/foresight-diamond/>.
SANTOS, A. (2011) Um modelo integrador para formulação de estratégias múltiplas: contribuição da análise prospectiva. Tese de Doutorado, PUC Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ.

SCHWARTZ, Peter. (1996) The Art of long view. Planning for the future in an uncertain world. New York: Doubleday.

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