sábado, 16 de novembro de 2019

Bioeconomia: Qual será o posicionamento estratégico do Brasil?


O agronegócio é o pensamento estratégico nacional. Um dos poucos ou talvez o único. O potencial brasileiro não se encontra apenas na produção agrícola, mas também na exploração de nossa biodiversidade. Sendo um país continental, abrigamos diversos biomas com um grande potência para alimentar a economia do futuro: a bioeconomia.
O termo, que apesar de existir há mais de 50 anos, ganhou projeção na última década, tendo sido incorporado, como prioritário, nas estratégias de países desenvolvidos, como Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Suécia, Finlândia e União Europeia.
No Brasil, a bioeconomia tem estado presente no debate também há algum tempo. Foi objeto de cenarização na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em 2016, durante a construção dos Cenários exploratórios para o desenvolvimento tecnológico da agricultura brasileira, que apontavam sua importância. No cenário “Na crista da onda”, a bioeconomia associada ao protagonismo na geração de tecnologias de vanguarda e grandes possibilidades de inovação são forças que geram profunda mudança estrutural em pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) nas cadeias agropecuárias até 2034. O país se torna protagonista na geração de produtos, tecnologias e serviços na fronteira do conhecimento e na sua implementação nas dimensões alimentícias e não alimentícias, com profunda diversificação da produção e das oportunidades para diferenciação dos produtos. Também apresenta resultados significativos na adição de valor ao longo dos diferentes elos das cadeias produtivas associadas, em particular biofármacos, bioinsumos e bioprodutos (Martha et al., 2016).
O tema retorna ao debate nas oficinas e na construção dos cenários para Brasil 2035, momento em que foram desenvolvidas cenas para bioeconomia em cada um dos quatro cenários construídos (Marcial, et al., 2017).
Em 2018, o Ministério da Ciência, Inovação, Tecnologia e comunicação (MCITC), lançou o Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação em Bioeconomia cujo objetivo é “promover o desenvolvimento científico, tecnológico e da inovação para superar os desafios e aproveitar as oportunidades apresentadas pela bioeconomia nacional, focando no desenvolvimento sustentável e na produção de benefícios sociais, econômicos e ambientais”. Em julho de 2019, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), publicou a portaria que institui o Programa Bioeconomia Brasil[1].
O tema também foi foco do VII Congresso da Rede Brasileira de Tecnologia e Inovação de Biodiesel, no início de novembro/2019, em Florianópolis. Ao tempo em que comemoravam o aumento da mistura do biodiesel ao diesel, levantavam a preocupação com o contigenciamento dos recursos destinados a pesquisa na área desde 2013, bem como a necessidade de desburocratização para ampliação do número de start ups na área. Sem recursos para pesquisa e sem a redução da burocracia a área teria dificuldade de evoluir.
Entretanto, essas iniciativa não caracterizam uma estratégia nacional para a bioeconomia, que alinhe as estratégias dos diversos agentes para transformar o país em um expoente na área. O economista polonês Christian Patermann, em reportagem publicada recentemente na revista Exame[2], sob o título “Um mundo mais verde,” alerta que “o Brasil deveria ter uma estratégia nacional de bioeconomia”. Nessa mesma reportagem o coordenador-geral de bioeconomia do MCTIC, afirma que “sofremos problemas sérios de governança”, ou seja, falta uma estratégia conjunta que alinhe e otimize os investimentos e iniciativas existentes no país. Há necessidade de alinhamento estratégico, que oriente, com visão estratégia de longo prazo, as decisões dos diversos agentes públicos e privados.
Esse é um exemplo, dentre outros, nos quais Brasil possui um grande potencial de desenvolvimento, mas que muitas vezes perde o “bonde da história” pela falta de uma estratégia de longo prazo que alinhe os investimentos e iniciativas no país.
A questão que se levanta é: por quanto tempo o país irá permanecer sem uma estratégia de longo prazo? E, que áreas serão priorizadas? Desde que a antiga Secretária de Planejamento da Presidência da Repúbica foi extinta que o país padece sem um rumo de longo prazo. Preso a estratégias de curto prazo dos governo que entram e saem, repleto de solução de continuidade em projetos estratégicos, vivendo em voos de galinha.
O Brasil possui muito mais condições de desenvolve-se e ser líder em bioeconomia do que qualquer um dos países citados: é um país tropical, com mais de uma safra ao ano, possui água em abundancia e grandes extensões de terra cultiváveis para suprir de matéria prima essa economia do futuro, além de uma biodiversidade fantástica de despertar inveja e cobiça em qualquer país no mundo. Mas precizamos (precisamos) mais do que isso, é necessário formular uma estratégia, realizar escolhas e investir em capacitação e PD&I. Precisamos priorizar! Concentrar esforços! E para tanto, é necessário olhar para as nossa competências essências e para o futuro.
A bioeconomia poderia dar mote a priorização dessas áreas estratégicas, pois dialoga com o nosso pensamento estratégico, com nossa competência essencial e com o futuro, mais limpo e sustentável. Também poderá gerar muitos postos de trabalho.
O campo da bioeconomia é enorme, e se amplia quando associado a bio e a nanotecnologia, ofertando novos materiais limpos, recicláveis e renováveis. Além disso, o país dispõem da Embrapa, que poderá ser utilizada como peça estratégica chave em todo esse processo, pois já possui, inclusive, pesquisas nessa área. Falta a definição de prioridades para a concentração de investimento. Falta uma estratégia e vontade política.
Definir que áreas da bioeconomia deverão ser priorizadas é o trabalho que a formulação de uma estratégia de longo prazo teria a responsabilidade de indicar, para que se priorize os investimentos em PD&I, capacitação e dos agentes econômicos que colocarão o Brasil na posição de país desenvolvido que há muito merece ocupar.
Elaine Marcial é Doutora em Ciência da informação e coordenadora do NEP-Mackenzie – Núcleo de Estudos Prospectivos da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília.

REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação. Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação em Bioeconomia. Brasília, DF: Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 2018.
MARTHA JUNIOR, G. B.; PENA JUNIOR, M. A. G.; MARCIAL, E. C.; CASTANHEIRA NETO, F.; TORRES, L. A.; NOGUEIRA, V. G. de C.; CHERVENSKI, V. M. B.; SILVA, G. T. S. da; WOSGRAU, A. C. Cenários exploratórios para o desenvolvimento tecnológico da agricultura brasileira: síntese. Braília: Embrapa, 2016. Disponível em: <https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/156492/1/AGROPENSA-cenarios-exploratorios.pdf>. Acesso em: 14 de nov. 2019.
Marcial et al. Brasil 2035: cenários para o desenvolvimento. Brasília: Ipea/Assecor, 2017. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=30156>. Acesso em: 14 nov. 2019.



[2] Exame – Especial guia Exame de sutentabildiade: A eocnomia do futuro. São Paulo: Exame, Edição 1197, ano 53, nº 21, 13 de nov. 2019.

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